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Rio de Janeiro, 25.07.10 |

Cegos, surdos e mudos

Cegos que veem, mas não leem. Cegos.
       
Os olhos que perpassam os jornais só apuram notícias simples e banais. São olhos tímidos e pequenos. Não há necessidade de que outros percebam o olhar. Um olhar meio de lado, corpo murcho, braços soltos. Um olhar meio sem graça, sem destino certo, quase nada.
       
Surdos que escutam, mas não entendem. Surdos.
       
Os ouvidos que escutam a leitura de um texto, um assunto qualquer, uma pergunta. Uma pergunta é feita. Contudo, não há resposta. Palavras não vêm porque são indecifráveis. Números não vêm porque são incalculáveis. Um ouvir meio confuso, cabeça inclinada. Um ouvir meio distante, sem direção certa, um pouco de tudo, quase nada.
       
Mudos que falam, mas não dialogam. Mudos.
       
Os lábios que se movimentam freneticamente ao longo do dia falam do BBB, do Mais Você, das estrelas da tevê, do vizinho e da vizinha. Falam do batidão e do mundo cão, do noticiário de plantão, dos corpos achados ou perdidos no Complexo do Alemão. Mas não. Não falam sobre educação.
       
E assim, cegos e surdos e mudos se multiplicam a cada dia nas esquinas do país. Não veem o óbvio, não escutam o apelo, não dizem coisa com coisa.
       
E assim, cegos e surdos e mudos transitam a cada dia nas ruas do país. Não veem nada de interessante, não escutam nada de importante, não dizem nada de relevante.
       
E assim, cegos e surdos e mudos, mesmo vendo porcaria, mesmo ouvindo baixaria, mesmo dizendo pornografia votam, decidem, opinam...
       
Enquanto o governo entende que a melhoria na educação passa pelo aumento das médias do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, escolas e mais escolas públicas caem aos pedaços, com salas sem luz, sem quadro, sem janelas. Prédios abandonados onde há aulas em banheiros. Lugares onde o comércio de entorpecentes acontece no corredor. Enquanto o governo entende que as estatísticas precisam indicar desenvolvimento, professores e alunos vivem uma outra realidade: estrutura péssima e condições mínimas.
       
Alunos desmotivados, professores desestimulados: ensino prejudicado. Alunos sem perspectivas, professores mal remunerados: educação meio de lado. Como ensinar com tão pouco? Como explicar o significado de cidadania se o próprio sistema educacional não respeita o educando e os profissionais de educação?
       
Educar não é informatizar escolas, mas saber como a informação forma o cidadão. Educar não é pintar paredes, mas saber que a tinta, assim como o sangue, possuem uma função. Educar não é dar comida na boca, mas saber o valor do arroz e do feijão.
       
Há tempos penso em escrever uma crônica sobre assunto tão delicado. Há tempos penso em como começar este texto. Um misto de desabafo, reflexão, expectativas, conquistas e frustrações. Na teoria, vejo ideias mirabolantes, filosofias ultrapassadas e projetos delirantes. Na prática, vejo heróis do dia-a-dia: alunos que saem sem comida e se esforçam em aprender alguma coisa; professores que trabalham com seriedade mesmo não recebendo do Estado a dignidade necessária para exercerem a função.
       
Muito se tem dito. Muito se tem feito. Pouco o produzido. Quase nada de efeito. Muito se tem rociferado. Muito se tem defendido. Pouco o produzido. E o que há já vem com defeito.
       
Após décadas e décadas de governos sem compromisso, de projetos abortados, de promessas não cumpridas vê-se o abandono da educação. Copa do Mundo e Olimpíadas se aproximam e tudo o que interessa é alcançar a média 6,0.
       
Cegos e surdos e mudos estarão felizes se alcançarem 6,0. Cegos e surdos e mudos terão um futuro brilhante se obtiverem 6,0. O país depende disso! Não há outro caminho, senão chegar ao 6,0.
       
Todos os países desenvolvidos chegaram onde estão justamente porque decidiram mudar o que estava errado e começaram pela educação. Estatísticas e médias serão bem-vindas quando a estrutura e o modelo mudarem. Um exemplo? As tão polêmicas e discutidas cotas. Por que não re-estruturar o Ensino Fundamental e Médio de modo que os estudantes sejam preparados para o vestibular? Não se resolve a questão abrindo vagas nas universidades para receber ‘injustiçados’, ‘marginalizados’. A base é ruim. Como começar a mudança pelo topo? Paradoxo e Loucura. Enganação e Propaganda.
       
Cenas do descaso: cegos e surdos e mudos brincam nas ruas, fazem acrobacias, se agrupam no mundo aterrorizante do crack. Cenas do absurdo: meninas-mãe, ainda com a boneca na mão, pedindo esmolas e atenção. Cenas do surrealismo: alunos formados que chegam às faculdades e não sabem ler nem escrever corretamente. Cenas da realidade: muita frouxidão, pouca cobrança, muita burocracia, pouca eficiência, muita teoria, pouca praticidade.
       
E assim, cegos e surdos e mudos perambulam pelo país. Não há memória nem história. Não há registro das coisas. Há o agora. A fome e a necessidade das coisas. A violência e a brutalidades das coisas. O grito e a raiva das coisas.
       
Há muitos cegos e surdos e mudos no país.
       
E nós, o que somos?
       
Cegos e surdos e mudos também?

***
SOBRE O AUTOR: *CAMPISTA CABRAL é poeta, cronista e contista. Escreve desde que se entende por gente. Escrever é uma necessidade e observar o absurdo do mundo através das palavras um destino, um caminho escolhido com consciência. Campista também é professor de Língua portuguesa e Literatura e, por conta da profissão e da paixão, está sempre imerso em palavras. Possui textos publicados nos sites Recanto das Letras e Escritartes. Contato: gegecabral23@hotmail.com ]]
 


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