Harry Potter e o Enigma do Príncipe
Mais uma vez, estamos de volta a Hogwarts.
Depois de um adiamento de oito meses em relação
a sua previsão original de estréia (novembro
de 2008), chega às telonas do mundo inteiro o sexto
filme da franquia Harry Potter. A expectativa era enorme,
não apenas pelo bom trabalho que o diretor David
Yates havia realizado no longa anterior, mas sobretudo por
se tratar da adaptação do melhor dos sete
livros da série.
Em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, a atmosfera
é das mais assustadoras. Agora que o retorno de Voldemort
é de conhecimento geral, seus comensais da morte
não mais temem se expor e barbarizam tanto a comunidade
bruxa como o mundo dos trouxas. Nem mesmo Hogwarts parece
tão segura quanto antes. Dumbledore está preocupado
com o futuro, já que sabe que deve preparar Harry
para o inevitável confronto com Voldemort. Ele acredita
que um ex-professor de poções da escola, Horacio
Slughorn, conhece uma informação vital sobre
os poderes do bruxo das trevas e o convence a voltar à
escola usando como isca a oportunidade de lecionar para
o famoso Harry Potter. Dumbledore sabe que Slughorn se envaidece
de conviver com celebridades e acha que Harry é a
pessoa certa para conseguir extrair a memória que
ele tão ferozmente tenta ocultar. É na aula
do professor Slughorn que Harry encontra um antigo livro
de poções que pertenceu a alguém que
se intitula “o príncipe mestiço”
e que traz várias anotações inteligentes
que fazem com que ele se destaque na classe. Hermione acha
que o livro é perigoso. Estaria ela certa ou apenas
com ciúmes de não ser a melhor pela primeira
vez?

Seria ingênuo
pretender analisar esse filme em separado sem que nesta
opinião ecoasse todo o fenômeno Harry Potter.
A aventura do personagem na telona, que se iniciou quando
ele era uma criança em Harry Potter e a Pedra Filosofal
(2001) e seguiu adiante nos anos seguintes com mais quatro
filmes até chegar neste sexto, é algo que
extrapola os limites de um único longa-metragem.
Não apenas por se tratar de um personagem que “cresce”,
mas pelo amadurecimento da trama em si – mais adulta,
perigosa e emocionante a cada filme. A esta altura pouco
resta da inocência e deslumbramento daquele menino
que descobriu um mundo mágico que parecia a solução
para todos os seus problemas. Harry vai percebendo que o
universo bruxo tem desafios piores do que o mundo no qual
foi criado e que seu papel nesse cenário é
um fardo que ele não pode evitar.
Mas em um ponto todos os adolescentes se parecem, sejam
eles bruxos ou não: quando se trata de vivenciar
as trapalhadas e desenganos do amor. Uma característica
muito forte nesta fase e que serve como alívio cômico
para a obscuridade geral é a explosão de hormônios
que atinge os personagens principais. Harry se tortura por
só ter notado os encantos de Gina Weasley agora que
ela tem um namorado; Rony tem que lidar com as emoções
à flor da pele de sua primeira namorada, Lilá
Brown; e Hermione se enche de ciúmes de Rony, embora
tente a todo custo disfarçar. O destaque é
a novata Jessie Cave, que interpreta Lilá e arranca
boas risadas com suas exageradas demonstrações
de afeto. Apenas um aluno permanece indiferente ao clima
de azaração geral: Draco Malfoy tem outras
coisas com que se preocupar, já que foi convocado
pelo próprio Voldemort para uma missão que
trará conseqüências irreversíveis.
Falar do desempenho de atores do porte de Alan Rickman,
Michael Gambon e Helena Bonham-Carter é chover no
molhado. A boa surpresa é Tom Felton, o Draco Malfoy,
que volta a ter destaque neste filme e mostra um surpreendente
amadurecimento como ator. Pela primeira vez, o vilãozinho
arrogante que todos adoram odiar demonstra sinais de fragilidade
e dúvida. Já o trio central formado por Daniel
Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint está inserido
de tal forma no imaginário dos espectadores que não
há mais como analisar o desempenho dos atores simplesmente
porque é difícil separá-los de Harry,
Hermione e Rony. Mas vale destacar as habilidades cômicas
de Rupert. Quanto aos novos atores, é sempre um ganho
ter alguém do nível de Jim Broadbent no elenco.
No papel de Horacio Slughorn, o ator destila uma aura de
sofisticação empobrecida que é perfeita
para o personagem. Alpinista social, vaidoso, espirituoso
e elegante, mas também atormentado por alguns erros
do passado, ver Broadbent em cena é puro deleite.
Ponto também para a caracterização
e figurino. Perfeitos. Também merece atenção
a participação de Hero Fiennes-Tiffin (sobrinho
de Ralph Fiennes) como a versão infantil de Voldemort.
O garoto é impressionante. Já a Narcisa Malfoy
de Helen McCrory decepciona um pouco. De acordo com os livros,
Narcisa é uma vilã mais por associação
do que por vocação e sua aparência contrasta
de todas as formas com a da irmã desvairada Belatriz
(essa sim, má de doer). Bom, na tela não há
um contraste tão forte entre as duas.
Os efeitos especiais
e a direção de arte deste longa em particular
são fantásticos, o que fica evidente logo
no princípio do filme, quando espirais de fumaça
negra (na verdade, comensais da morte) sobrevoam Londres
e destroem a Millenium Bridge enquanto transeuntes apavorados
correm para salvar suas vidas. A cena é de tirar
o fôlego, digna dos melhores filmes-catástrofe.
Também a sequência em que Belatriz e Greyback
perseguem Harry e Gina em um matagal antes de atearem fogo
à casa da família Weasley é excelente.
Sem contar a concepção de Hogwarts, constantemente
envolta em nuvens cinzentas e com um aspecto pra lá
de agourento, e as eletrizantes sequências de quadribol.
Mas embora seja um primor visual do início ao fim,
o filme resiste à tentação do puro
show pirotécnico e limita os espetaculares efeitos
visuais a serviço da história.
O roteirista dos quatro primeiros filmes, Steve Kloves,
reassume o posto (o único roteiro que não
foi escrito por ele foi o de Harry Potter e a Ordem da Fênix)
e mostra habilidade na costura das diversas idas e vindas
entre o tempo presente e as memórias passadas. Mesmo
alterando bastante a narrativa original, Kloves foi fiel
à essência da história e injetou dinamismo
e ritmo na medida certa. Também soube intercalar
com eficiência tensão e perigo com cenas românticas.
É claro que é discutível o peso que
esse sexto filme dá aos assuntos do coração,
sacrificando outros pontos de importância para a trama.
Um exemplo é o fato de Snape ter conseguido o cargo
que cobiça desde o princípio da saga. O assunto
é mencionado tão de leve que passa despercebido.
Até mesmo a relação de Harry com o
livro de poções e o mistério sobre
seu antigo dono, detalhe importante a ponto de nomear o
episódio, acaba bastante diluído. Também
é chato que personagens bacanas como Lupin e Tonks
virem figurantes. Mas OK, comprimir é preciso. Considerando
a imensa quantidade de personagens e subtramas com que a
autora J. K. Rowling tece suas histórias, a grande
discussão invariavelmente é sobre o que deixou
de ser visto na tela.
O certo é que as adaptações vem evoluindo,
o que faz com que o filme mais recente seja sempre o mais
vibrante. E este não é exceção.
Trata-se da melhor adaptação até o
presente momento. Harry Potter e o Enigma do Príncipe
é um filme extremamente bem-cuidado, dirigido com
competência, bem interpretado e que conta uma história
envolvente de modo impecável em termos técnicos.
Difícil não gostar, seja você um leitor
ávido ou um espectador ocasional. Agora é
esperar para ver se o último longa da série,
Harry Potter e as Relíquias da Morte, estará
à altura. O filme será dividido em duas partes.
A primeira tem previsão de lançamento para
novembro de 2010 e a segunda, para meados de 2011. Até
lá, não é exagero pensar em algumas
indicações ao Oscar. Fotografia, direção
de arte, figurino e efeitos visuais é o mínimo
que este filme merece. |