O Caçador de Pipas
Impressionante, mas sem a força dramática do livro
Fui assistir ao filme “O Caçador de Pipas” procurando distanciar-me do que havia lido nas páginas do livro homônimo escrito pelo afegão Khaled Hosseini. Com a memória impregnada com as histórias da infância de Amir e Hassen, numa até então pacífica Afeganistão, foi duro desvincular-me das comparações. O longa-metragem dirigido por Marc Foster (o mesmo dos aclamados "Mais Estranho Que a Ficção" e "Em Busca da Terra do Nunca") não atingiu o mesmo nível dramático do livro e ficou aquém das minhas expectativas, embora compreenda ser quase impossível para qualquer diretor transpor para as telas os 30 anos que o livro abrange. Pontos fundamentais ficaram de fora, dando espaço para assuntos menos comoventes, como a ênfase ao retratar russos e talibãs como vilões. Entre as passagens importantes do livro que foram eliminadas, as seqüências vividas pelo filho de Hassen em Cabul certamente serão lembradas.
O filme começa na Califórnia no ano de 2005, com Amir já adulto e casado. No dia em que Amir (nessa fase vivido por Khalid Abdalla) recebe os exemplares do seu primeiro romance publicado descobre que terá de voltar à sua terra natal. Numa viagem épica, ele embarca rumo ao passado na tentativa de encarar os fantasmas da infância, e corrigir algumas fraquezas. Numa seqüência em flashback, Amir se vê brincando com seu amigo inseparável: o hazara Hassen. Os hazaras são minorias xiita de origem mongol que vivem no Afeganistão, e são considerados pelos talibãs como raça inferior. A amizade dos dois emociona. Hassen nutre uma verdadeira idolatria e é fiel ao amigo-patrão. “Por você eu faria isso mil vezes”, diz Hassen, ao ser questionado por Amir.
O jovem Amir (interpretado por Zekira Ebrahimi) gosta de escrever histórias e contá-las para Hassen (Ahmad Khan Mahmidzada), mas o ciúme de ter que dividir o carinho do pai com o amigo o leva a traí-lo. Quando a guerra estoura, os dois são separados por longos vinte anos. Mas antes, os amigos sentem o gosto da vitória ao vencerem o torneio anual de pipas. E é justamente nesse torneio que se dá a reviravolta que mudaria para sempre a vida dos amigos. Amir e seu pai são obrigados a fugir do país e a reconstruir a vida como refugiados nos Estados Unidos.
Desde o início “O Caçador de Pipas” foi cercado de polêmicas: as crianças protagonistas tiveram de deixar o país devido às ameaças sofridas. A cena em que Hassen é violentado enfureceu parte do povo islâmico, e o filme teve sua exibição proibida no Afeganistão. Isso acabou por contribuir positivamente para promover o longa ao redor do mundo.
A tônica deste filme é a chance que temos de repensar os valores de uma amizade honesta e sincera. É o desejo que temos, algumas vezes, de voltar ao passado e consertar parte de nossas besteiras e obter o perdão para continuar outra etapa de nossa jornada. O filme mostra que o perdão é possível de dentro para fora, e é fundamental para o crescimento humano.
Como filme, fica claro que Marc Foster não deu o esmero necessário para transformar a história numa obra prima, como fez em “Em Busca da Terra do Nunca” e “Mais estranho que a ficção”. Com exceção das imagens aéreas que são impressionantes, o resto soa muito óbvio. |