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por João Manoel* joao_manoel@click21.com.br
» RIO DE JANEIRO, 1 de janeiro de 2009

IRMÃO MALDITO

Era noite... Chovia muito, e os estampidos dos trovões inquietantes, faziam o esplendor de seus raios mais assustadores...

Ezequiel, que tentava dormir e não conseguia, virava-se no colchão do beliche onde dormia na parte de cima. Seu irmão Ezequias dormia em baixo. Não sei como consegue dormir com tanto estrondo... Ainda por cima ronca feito um porco, pensou o rapaz.

De fato, Ezequias tinha um sono pesado e não se assustava facilmente com qualquer coisa... Os dois eram diferentes em quase tudo. Ezequiel, o mais velho, com 17 anos, tinha ciúme do irmão de 15, por causa dos pais que demonstravam a todos querer mais ao Ezequias, que parecia ser o mais inteligente, tanto que na escola tirava as melhores notas. Freqüentavam o Ginásio local e ambos faziam a quarta série.

Ventava muito lá fora e Ezequiel, maldosamente, resolveu assustar o irmão com uma brincadeira. Puxou o ferrolho da janela com o pé e a abriu... Uma golfada de vento entrou forte e se projetou sobre o beliche. Ezequias recebeu toda a carga de vento misturada com respingos da chuva forte...

Em cima, o irmão nada sofreu. Fingiu estar dormindo... Ezequias levantou-se rápido e fechou a janela, embora levando em seu corpo quente a gélida friagem da chuva. Em seguida, se enxugou com uma toalha que pegou no banheiro ao lado... Seu irmão ainda de fingimento, dormia.

Dia seguinte, o rapaz amanheceu com fortes dores e espirrando muito. Sua mãe preparou um chá de ervas e ele tomou com uns comprimidos. Ambos foram à escola.

Ezequias saiu mais cedo, pois não suportou as dores de cabeça e da febre que se alojou em seu organismo. Foi sozinho pra casa e dali para o médico. Diagnóstico: princípio de pneumonia...

Já em casa e com uma bateria de remédios ao lado da cama, Ezequias estava mau... Sua mãe o medicou segundo a receita. Lá pelas duas da tarde Ezequiel voltou. Olhou o irmão acamado e desdenhou: Tá vendo? Pensa que só inteligência é a melhor coisa? Ser forte também é necessário... Qualquer coisa fica logo doente... Parece até feito de plumas...

Aquilo o deixou chateado. Escuta aqui, Ezequiel! Sei que você não gosta de mim. Tenho quase certeza que foi você que deixou a janela aberta pra me prejudicar... Não foi?

Claro que não... Nem sei do que está falando... Eu dormi feito uma pedra...

O cinismo estampado no rosto de Ezequiel foi o fim. Ezequias levantou-se e partiu pra cima do irmão. Os dois rolaram pelo chão e como Ezequiel era mais forte ficou por cima e bateu no rosto do irmão, mão fechada...

Dona Elvira entrou assustada com a algazarra. Parem com isso! Estão loucos? Onde já se viu dois irmãos brigarem assim? Irmão, não! Isso é um maldito, um traste imprestável. Ezequias estava possesso.

Não diga isso do seu irmão. É maldito sim! O que ele fez é imperdoável. Estou doente por causa dele.

Então, o rapaz, sob o protesto do irmão, contou tudo à mãe.
- Ezequiel! Você fez isso mesmo? É mentira, mamãe.
- Ele tá querendo se safar.
- É verdade, mamãe... Se não tivesse tomado friagem e chuva no peito não tinha adoecido...

O jovem caiu, desmaiando.
- Está fingindo, mãe... É um falso!
- Ajude-me, filho. Vamos colocá-lo na cama...

Daí a pouco, ele voltou a si. Quando o pai chegou, Elvira contou tudo ao marido. Indignado, Laerte chamou Ezequiel. Deu-lhe um sermão e prometeu tirar sua mesada.

À noite, cheio de ódio, ele praguejou: Tomara que morra!... Não me fará falta. O destino às vezes é cruel com uns e indulgente com outros. Ezequias piorou e teve de ser hospitalizado. Em poucos dias estava na UTI e, uma semana depois, faleceu.

Seus pais sofreram desesperadamente. O enterro foi simples e discreto. Ezequiel voltou pra casa sem demonstrar sofrimento nem arrependimento por tudo que causou. Seus pais resolveram mudar dali. Em poucas semanas estavam saindo.

Na nova casa, há várias semanas do ocorrido, o rapaz não dormia direito. Sonhava sempre com o irmão. Uma noite teve um pesadelo: Ezequias entrou pela janela, descarregando sobre o irmão uma golfada de vento frio e forte, enquanto dizia: Maldito!... Vais morrer do mesmo jeito que eu morri... Esse será teu castigo!

Ele acordou suado e com os olhos arregalados... A janela estava aberta. Levantou-se e correu a fechar. Tinha certeza que a deixara trancada.

Dia seguinte, teve outro sonho. Estava tão frio que ele se encolhia todo na cama, agora, na parte de baixo. Acordou todo encolhido. A janela estava aberta. Levantou-se e fechou-a.

Maldito!... Me deixe em paz!..., disse.

Sua mãe entrou e perguntou: Que está havendo, filho... Por que estais gritando tanto? É ele!... Não me deixa em paz... Acha que eu o matei...

O rapaz chorava copiosamente. Sua mãe, tristonha, sentou-se ao lado dele.

Escute, filho. Não se culpe pela morte de seu irmão. No fundo, nós também somos culpados. Sabíamos de seu ciúme por causa dele. Nada fizemos para evitar. Não é que tivéssemos mais amor por ele. Amávamos os dois iguais. Só que teu irmão por ser o caçula e mais frágil tomava mais nossa atenção. Me arrependo de não ter conversado com você há mais tempo, não te fazer ver e compreender isso... Agora é tarde. Teu irmão se foi e só nos cabe agora chorar e lamentar. Para nós foi uma enorme perda. Teu pai está arrasado.

O rapaz ficou tão cheio de remorso que chorou o resto da noite, arrependido.

Dia seguinte foi até a igreja local e se confessou, comungou e depois ajoelhou-se aos pés de Cristo crucificado e rezou muito.

Saiu e se dirigiu ao cemitério onde depositou flores e rezou muito sobre a tumba do irmão.
À noite, acordou com o barulho de vidro quebrando. Levantou, notando que a janela fora apedrejada... Havia ao pé da cama uma pedra com um papel amarrado. Quem teria arremessado-a? Pensou. Pegou e leu o papel. Estava escrito: Maldito! Além disso, é falso!

Ezequiel quase cai pra trás. Cambaleou, enquanto chamava... Mãeee!!...
Elvira apareceu quase correndo. O que foi dessa vez, filho?...

Ele sem dizer nada entregou-lhe o bilhete...

- Não é possível, disse ela.
- Não pode ser verdade... Alguém deve estar brincando com a gente. Algum engraçadinho...

Laerte, desta vez, também acudiu.

- Que se passa?... Ao ver e ler o papel, disse: Algo de sobrenatural está acontecendo... Vocês estão vendo a prova disso. Essa letra é de Ezequias... Não há dúvida.

Foram dormir em seu quarto, inquietos com a situação. Ezequiel foi junto e deitou no chão, sobre o colchão.

Dia seguinte, quando a noite chegou, todos se acomodaram no quarto do filho. Lá pela madrugada, exaustos de sono - Laerte já estava dormindo -, mãe e filho também dormiram.

Dormiram e acordaram com o barulho em cima deles. O beliche balançava enquanto se ouvia uma voz bem conhecida: “Maldito!... Maldito!... Vim te buscar!...”

Laerte pulou de onde estava. Ezequiel agarrou-se à mãe e esta se ajoelhou e rezou, abraçada aos dois. Em cima do beliche, um par de olhos os encarava.

Cheio de remorso, Ezequiel pediu perdão. Várias vezes. E, tão profundo foi seu arrependimento, que aquela visão foi sumindo... sumindo... até sumir de vez.

E daquela noite em diante nada mais aconteceu... Só que quem visse Ezequiel e o conhecesse bem, diriam que ele estava mais velho uns dez anos.

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    *João Manoel escreve para o site Crônicas Cariocas


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