Entrevista:
Reynaldo Bessa
| |
Foto:
Divulgação/Site do autor
 |
|
|
O
cantor, compositor e violonista potiguar, Reynaldo Bessa
nasceu em Mossoró, no Rio Grande do Norte, morou
em Fortaleza e já está radicado em São
Paulo há 15 anos.
Já lançou quatro cds autorais. O trabalho
de estréia foi “Outros Sóis”
(1994 - independente). Em 1996, lançou “O
Beco das Frutas” (Selo – Alpha Music) e
o terceiro, “Angico” (2004 – Selo
- Devil discos) este último, selecionado para
o prémio TIM de música de 2005. gora lança
o seu quarto trabalho.
Sua música é fortemente influenciada pela
cultura de sua região de origem, o nordeste –
com seus ritmos, cores, folclore, poetas, músicos,
- mas também, sempre está aberta a novos
experimentos e tendências da música do
mundo.
Em seu disco (Angico)
já citado acima, Bessa, utilizou alguns ruídos
eletrônicos, e guitarras distrocidas, resultando
num disco atual, sem perder a essência. ... Esse
disco sou eu... define, o artista.
Além dos
discos autorais, Reynaldo Bessa já participou
de vários discos de outros artistas e cds de
coletâneas. Num desses projetos, o cd “Cachaça
Fina” dirigido ao mercado europeu, teve incluídas
duas músicas do artista.
Reynaldo Bessa tem
parcerias com diversos outros compositores. Dessas parcerias,
a música “Por Amor” de Bessa e Zé
Rodrix, foi gravada pelo grupo IRA!, no seu acústico
MTV. Das inéditas, É a única música
no disco que não é do guitarrista Edgar
Scandurra.
Já tocou
ao lado de Rosa Passos, Quinteto Violado, Chico César,
Alceu Valença, Moraes Moreira, Zé Geraldo,
Geraldo Azevedo, entre outros.
Já participou
de diversos festivais de música, sendo premiado
diversas vezes.
O Artista está
lançando o seu quarto disco, “O Som da
Cabeça do Elefante" com participação
da cantora maranhense, Rita Ribeiro.
Desse cd, duas músicas
já foram selecionadas para o mapeamento da música
brasileira, realizado todo ano pelo Instituto Cultural
Itaú.
A entrevista:
WILMAR SILVA
- Sem a origem é impossível falar
da vida, como foi a sua infância em Mossoró,
no Rio Grande do Norte?
REYNALDO
BESSA - Começando com Cacaso, como falar
de um país em que vivo já há muitos
anos em exílio? Mas tentarei, querido poeta.
Quando comecei a rabiscar as primeiras linhas nessa
grande folha em branco que era o meu passado, e que
agora se encontra quase sem espaço e totalmente
rasurada, minha mãe fazia os meus calções
e as minhas camisas. Tinha medo do som dos tambores
que vinha dos terreiros, mas ao mesmo tempo queria conhecer
esse som. Riscávamos as paredes dos muros com
o sumo vermelho da castanhola. Não subia em árvores
com receio de machucar as bichinhas. Os jasmins me davam
vontade de chorar e o apito do trem ao longe me passava
um sinal de que crescer seria uma coisa triste. Os adultos
me diziam coisas boas, mas seus olhos os desdiziam.
Mossoró sempre foi uma cidade muito quente, então
sempre vejo o meu passado fervendo do outro lado. Homens
suando, gritos, becos sem saída, mulheres grávidas,
galanteios, gatos fujões, amores, crimes, frutas,
vaga-lumes e mugidos. Tudo tremulando como uma vela
aflita num deserto escuro. Não devia sair muito
de casa, não devia dormir sujo, devia comer muito,
não falar com estranhos, lavar as mãos
antes de comer, jogar menos bola, mas eu sempre arranjava
um jeito de me contagiar de mundo. Uma boa infância
é constituída de pequenas transgressões.
WS - Falando em
hebraico, que Brasil é o Brasil de Natal?
RB - Um chão
mais próximo da nossa raiz, mas ao mesmo tempo
mais próximo da nossa culpa: A África.
Convivemos com isso: A áfrica debruçada
sobre a janela como ainda hoje encontramos algumas donzelas
debruçadas melancolicamente sobre algumas janelas,
num final de tarde de uma rua histórica do país-Natal.
Esse país se liberta aos poucos do pensamento-província
(esse mal que nos amarra) e começa a mostrar
a sua verdadeira cara, a sua vontade de contar as suas
próprias histórias, a sua força
e o que é ainda melhor, assumir as conseqüências,
pagar o preço. Essa “cara” leia-se;
a música, a dança, o teatro, a poesia,
a literatura e tudo que expõe o ser em carne
viva. O progresso leva embora as conversas na calçada
no cair da noite, mas em compensação nos
deixa a vontade de questionar sobre o que é a
“noite” É o estar fora e não
dentro. O país-Natal e todo o estado do Rio Grande
do Norte, hoje, já me reconhecem como seu representante.
Fico feliz por isso e agradeço. Shalon! Natal,
Shalon! Rio grande do Norte.
WS - Se a música
é a fonética dos idiomas, como descobriu
a música em sua língua?
RB - Um alemão
uma vez me disse: A palavra que mais gosto no português
é “Estacionamento”. Com um sorriso
infantil boiando no rosto, ele ficava repetindo lentamente
essa palavra: E-S-T-A-C-I-O-N-A-M-E-N-T-O. Algumas pessoas
não entendem isso, mas é forte. Existe.
Desde muito cedo tive esse fascínio pelo mistério
das palavras, por essa força, mas até
encontrar um cego tocando sanfona na feira, eu ainda
não havia encontrado a cola. Essa coisa música
e letra ou vice-versa. Numa mistura de medo e admiração
encontrei o meu destino. Colocar um texto dentro de
uma célula musical, perfeitamente, só
se compara ao Fiat lux. Mas descobri também a
responsabilidade disso. Cuidado com o que você
diz, pois tem sempre alguém que acredita. Então
tenha consciência do que diz. O Músico
não faz umas musiquinhas aí, man. Boa
ou ruim, isso é uma mensagem, uma informação.
Então descobri o “como” e o “por
quê?” É importante descobrir esses
dois.
WS - Que memória
preserva de sua descida a São Paulo quando realmente
pisa sobre a cidade, a exemplo de sua letra/música
“Lamento Urbano?”.
RB - Apesar dos
contratempos típicos de uma cidade grande como
é São Paulo, sou apaixonado por essa cidade,
porém já são mais de vinte anos
aqui e queira ou não a gente perde um pouco as
impressões obtidas do começo de tudo.
Lembro que logo que cheguei tudo parecia muito rápido.
Os gestos das pessoas pareciam violentos demais. Passei
um dia inteiro numa praça, pois achava aquilo
tremendamente lindo. As flores não me remetiam
as flores da minha terra. Apesar desse distanciamento
que você acaba ingerindo com o tempo, vez ou outra
ainda me encontro numa “São Paulo”
que está dentro de São Paulo. Não
sei por que, mas acho que isso tem sempre a ver com
a lua cheia, essa aranha amarela tecendo a noite. Há
algo nos néons, esquinas e pistas molhadas, pois
estão sempre a disparar flashs, insigths. Então,
mesmo longe do computador, passo a escrever longos capítulos
e também poemas que jamais me lembrarei novamente.
Só pelo prazer do diálogo com a cidade.
Quando chego de alguma viagem e o solo de sampa já
úmido e a garoa me dizem “bem-vindo”
é inevitável não cantarolar essa
canção feita por um rapaz cheio de sonhos
e medos.
WS - Sendo um músico
apaixonado por poesia, o que pensa sobre o pernambucano
de Olinda, Chico Science e sua “Nação
Zumbi?”.
RB - Chico Science
não era um desavisado. Era antenado. Ligado em
tudo o que acontecia ao seu redor e por isso causou
todo esse burburinho. Muitos músicos hoje querem
revolucionar. Falam sempre em mudar as coisas, mas não
sabem que pra fazer isso é preciso embasamento
e não só ficar tocando suas guitarrinhas
e depois beijar suas meninas. Science mudou o jeito
de pensar e fazer música, ditou comportamentos.
Com suas letras fortes e suas misturas antes consideradas
impossíveis, criou seguidores e talvez o maior
movimento musical-poético-panfletário.
Science não cuspiu na tradição
como costumam fazer, pelo contrário, usou-a como
suporte para criar uma idéia totalmente nova.
Nos termos de hoje, diria que ele fez um upgrade da
tradição. Vejo o mangue beat como uma
quase mistura de Alceu Valença, O Rock clássico,
O eletrônico, os tambores dos terreiros, os lamentos
nordestinos e isso tudo regido por João Cabral
de Melo Neto (queira ele ou não).
WS - A música
“O Novo” apresenta um Reynaldo Bessa repleto
de verdades inassimiláveis pela sociedade ou,
puxando à memória Ricardo Reis/ Fernando
Pessoa, a letra é apenas “música
que se faz com idéias”?
RB - Vejo o futuro
como alguém metendo a mão dentro de um
covil de cobras no intuito de trazer algo que muito
lhe interessa e com isso levando algumas picadas. Então
esse fujão traz sempre algumas coisas desagradáveis.
Não quero ser pessimista, mas hoje ainda vai,
amanhã não sei. Parece que a coisa tende
a degringolar. Parece que isso virou o grande barato.
Então a canção “O Novo”
surgiu do cansaço dessa apologia à banalidade,
ao fácil, ao vazio. Desse endeusamento ao extremamente
fácil em detrimento do pensamento, do filosófico.
Acho essa tendência preocupante, pois o mundo
não acaba em nós. Sempre ouço pessoas
dizendo “precisa mudar, aparecer alguém
novo, algo novo”, mas aí quando esse algo
aparece, é imediatamente pichado, renegado. Isso
em todas as áreas. Enquanto um produto vazio
é elevado ao posto de “Sucesso”,
uma coisa de qualidade é esquecida. A canção
o novo é o meu desabafo, o meu alerta, o meu
grito na noite mais escura do mundo, mesmo sabendo o
quanto isso é inócuo. Ela é o presente
que não eu quis receber. Não tenho o menor
intuito de mudar o mundo, não sou ingênuo,
mas quero me reservar o direito de me transformar, ouvir
e dizer o que penso. Se o mundo tiver alguma possibilidade
me mexer um pouco o seu eixo em direção
ao belo, ao criativo, ao pensamento, creio que isso
se consiga com “idéias” e não
com armas, como estão fazendo.
WS - A verdade,
Reynaldo Bessa, que país é São
Paulo?
RB - A minha verdade
será sempre e somente a minha verdade. Sampa
se revela de maneiras diferentes a cada um. Quando você
muito a quer, ela percebe e ai te nega um colo, um beijo,
uma foda, mas quando você decide ir embora, ela
te abre os braços e as pernas e passa toda uma
noite ouvindo atentamente o que você tem a dizer.
Ela é astuta, maliciosa, porém frágil,
é preciso ouvi-la de vez em quando. Afortunados
e famintos dividindo o mesmo solo (solo, não
o teto). Felizes e infelizes comungando o mesmo banco
no ônibus lotado. Há segredos nas esquinas.
Podemos encontrar um revolver, um novo amor ou um futuro
amigo. O risco está sempre em nosso encalço.
O jogo de vencer ou perder. Espalhadas pelas ruas como
contas de um colar que arrebentou, encontramos: A promessa
de um dia de sol e céu azul, a mistura de raças,
de culturas, a fome, o desdém, o auxílio,
o desamparo e o consolo. Tudo isso convivendo como engrenagens
de uma grande máquina que precisa funcionar.
Costumo dizer que São Paulo é uma cidade
onde o atalho pode tornar o caminho mais longo. São
Paulo é feminina e nunca se conhece inteiramente
uma mulher.
WS - Exemplo do
nome em si, “Angico” revela um substantivo/árvore
em estado profundo de ecologia, o que pensa sobre os
Índios, um dos problemas irreversíveis
no Brasil?
RB - Angico é
sim o nome de uma árvore muito encontrada no
nordeste. É uma árvore de madeira resistente,
por isso muito procurada, derrubada, saqueada como tudo
nesse país, mas o nome do meu terceiro disco,
o “Angico” é uma alusão à
estância que meu avô possuía e que
eu sempre passava as férias da escola. Só
depois de muitos anos é que fui saber que tinha
esse nome, porque era grande a quantidade de angicos
encontrada por lá.
Sobre os índios, sem dúvida nenhuma, um
genocídio. Mas me preocupo com a situação
do índio no mundo. Longe de ser militante nesse
assunto, mas me incomodo muito com isso. Minha avó
tinha sangue índio. Com a conquista do Oeste
(essa busca insana pela posse) os índios americanos
foram trucidados à vista e os índios do
Brasil com uma boa entrada e depois em suaves prestações.
Um crediário genocídico, se assim posso
dizer. Pior do que os assassinatos covardes é
a descaracterização de um povo original
e que amava e entendia tudo ao seu redor. Krishnamurti
dizia que o mundo foi dividido em oriente, ocidente,
paises, regiões, por puro medo. Os índios
nunca delimitaram nada, eles já estavam lá.
Não sou cineasta, mas tenho vontade de ainda
fazer um filme em que devolvo a real posição
do índio (defensor de suas terras) e coloque
a cavalaria no seu devido lugar, o de invasor. Sempre
nos foi passado o contrário disso.
WS - É possível
uma música verdade extraída da experiência
humana do ser em busca do amor?
RB - A música
é uma eterna dança sonora, rítmica
entre o possível e o impossível. Tudo
pode acontecer. Vinícius de Moraes dizia - quando
lhe questionavam o que significava determinada passagem
de uma de suas músicas – que era tudo mentirinha.
Vinicius era um poeta passional demais. Queria viver
sempre na linha vermelha da existência. Tinha
uma mala cheia de experiência, então acredito
que ele dizia isso ou porque não queria explicar
ou porque aquilo já não fazia mais sentido,
pois foi desbotado pelo tempo. Mais ou menos como um
homem já com bastante idade tentar explicar como
ele se sentia numa foto de quando tinha cinco anos de
idade. Então o que sei dizer é que toda
a matéria prima da minha música é
a verdade. Sempre no encalço da busca, como um
cachorro correndo atrás de um osso amarrado a
algo que corre mais do que ele. Quando faço uma
canção, vivi aquilo, só que pinto,
visto um pouco essa história. Uso os meus truques,
mexo as minhas mãos, mas a verdade sempre estará
lá, como vivência, como o real motivo dessa
música existir.
WS - Quem Reynaldo
Bessa convidaria para “uma viagem ao desconhecido”
(Vladimir Maiakovski)?
RB - Já não
estamos numa viagem ao desconhecido? Precisamos de outra?
Isso já seria praticamente um presente grego.
Sinceramente, não conheço essa passagem
de Maiakovski, lamento, mas acho que já temos
incógnitas demais.
WS - Por falar em
geografias, a música tem a língua do sublime
ou realmente as águas e as montanhas dividem
povos e terras?
RB - Uma vez um
poeta me disse que quando se mora entre as montanhas,
tudo o que ele diz e faz volta para si mesmo, pois ricocheteia
e assim o resto do mundo não toma conhecimento
do que ele está fazendo, (rs). Achei isso interessante,
mas não concordei, pois acredito que a arte:
música, poesia, etc... Sabe das fendas, voa alto
ou existe além-matéria. Acredito que quando
a mensagem é vital, encontrará sempre
um destino certo e nunca haverá obstáculos
pra isso. Ou mais, acho que primeiro nasce o destino
dessa criação e depois é que nasce
a criação. Os alimentos nascem da fome
e não o contrário. Os maiores movimentos,
como o Surrealismo, Dadaísmo e etc... Aconteceram
ao mesmo tempo em diversos lugares que até então
não tinham nenhuma relação, nenhum
contato. O que é isso? Acredito que os verdadeiros
obstáculos são o ódio, a indiferença,
o desdém pelo próximo, e mesmo esses,
a arte encontrará sempre um jeitinho de burlá-los.
O mundo vale a pena pelo o insondável.
WS - O CD “O
Som da Cabeça do Elefante” é estranho
a partir do nome, o poeta Alberto Pimenta escreveu “os
artistas mais ousados apresentam a floresta em cima
da virgem ou a virgem em cima da floresta”, mais
que metáforas, que sentido tem o idioma sonoro
de “O Som da Cabeça do Elefante?”.
RB - Oscar Wilde
disse que um homem é sempre menos sincero quando
fala de si mesmo, dê-lhe uma mascara e ele contará
a verdade. Mas vamos lá. O que dizer da famigerada
cabeça do elefante. Gosto desse título,
gosto da sonoridade, gosto da estrutura, da construção,
mas gosto ainda mais do que ele incita do que propriamente
o é. Explicar é limitar, cercear. A única
coisa que digo sem titubear é que voltei pra
casa com esse disco. Achei minha estrada, mas nem por
isso vou caminhar por ela. Mas sei exatamente o seu
lugar. Hoje não sei quem eu sou, mas sei quem
não sou. Gosto da reação das pessoas
quando se deparam com o titulo desse novo trabalho.
Gosto de vê-las pronunciando. O significado está
nos significados de cada um. Nasce um a cada dia. Agora,
o título é uma alusão descarada
ao meu lugar de origem, Mossoró que fica na cabeça
do elefante. O Mapa do Rio grande do norte tem um formato
de um elefante.
WS - A propósito
de “Ismália”, poema de Alphonsus
de Guimaraens musicado por você, o que pensa sobre
a poesia de João da Cruz e Sousa?
RB - Gosto dos Simbolistas
, e Cruz e Sousa é sem dúvida alguma o
maior do Brasil. Se ele não tivesse existido,
não deixaríamos de ter o Simbolismo, mas
com certeza demoraria muito mais tempo pra nascer aqui.
Delicio-me sempre que releio Missal e Broquéis.
Acho que o que o matou realmente foi o racismo e não
a tuberculose. Ele foi um Simbolista, mas ainda com
alguns resquícios do romantismo, como: o culto
à noite, a angústia do fim, o pessimismo,
o satanismo. Tinha um estilo refinado, se preocupava
com a forma e carregava muito nas imagens e isso era
muito forte também em Alphonsus de Guimaraens.
Toda grande e bela arte terá sempre que nascer
de muito sofrimento?
WS - Seu diálogo
com a língua mostra um artista no rastro de uma
poesia em “permanente hesitação
entre som e sentido”, a exemplo da fala de Paul
Valéry?
RB - Valéry,
Valéry, Valéry, que palavra boa de se
pronunciar. O Mundo não precisa de padres e médicos,
precisamos sim é de mais poetas, os bons, é
claro. É exatamente isso. Total hesitação
entre som e sentido, meu deus, isso soa como deve soar
o estalinho da fechadura do cofre no ouvido do assaltante
no meio da noite.
WS - A música
“Se Deus Quiser Falar Comigo” é uma
provocação a Gilberto Gil ou a Novalis
quando escreve que a poesia é “a religião
original da humanidade?”.
RB - A idéia
da letra surgiu após uma leitura de um dos contos
de Voltaire que fala sobre um anjo que desce a terra,
e solicita a um dos moradores, um relatório sobre
o que era bom e ruim em sua cidade. Dependendo disso,
ele iria ou não destruir a dita cidade. O morador,
um homem simples, porem muito inteligente, questionou
porque ele, já que um anjo tinha mais poderes
pra isso, afinal de contas era um anjo? No que o anjo
respondeu, sou anjo, por isso não entendo essa
coisa de humano, então tem que ser alguém
que entenda. Daí resolvi criar a letra partindo
da idéia de que só o homem pode ser responsável
por si mesmo, afora isso, nada tem autonomia para julgar
seus vícios e suas virtudes. Nunca aceitei essa
coisa platônica de céu e inferno. Maniqueísmo
nunca foi o meu forte. Não acredito que Deus
(infelizmente não tenho outra palavra para colocar
no lugar) saiba o que significa depressão, fome,
saudade. Se não sabe, não pode julgar.
Ponto. Quando surgiu a idéia do título
foi que resolvi provocar Gilberto Gil. Acho o Deus do
Ministro, tremendamente afetado, burguês e vazio.
Não acredito em nada que precise de oferendas
em troca. Nada que precise de incenso, silencio, imagens
e tarárá. Isso é baseado na posse,
na barganha. Isso é uma coisa do próprio
homem. A única coisa que concordo com Gil é
quando no final da música ele diz: que tudo isso
pode ser nada, nada do que podemos imaginar... acredito
nisso. Acho que com essa frase Gil salvou a música
e manteve o fã, tanto que faço uma provocação-homenagem.
Continuo achando que Deus é que tem que entender
o homem e não o contrário, por isso ele
tem que descer na esfera do humano. Deus é complicado
demais, mas confesso que sou menos indiferente a Deus
do que às pessoas que tentam vender esse equivoco
desbotado por séculos e séculos e séculos.
A
única coisa que digo sem titubear é que
voltei pra casa com esse disco. Achei minha estrada,
mas nem por isso vou caminhar por ela. Mas sei exatamente
o seu lugar. Hoje não sei quem eu sou, mas sei
quem não sou. Gosto da reação das
pessoas quando se deparam com o titulo desse novo trabalho.
Gosto de vê-las pronunciando. O significado está
nos significados de cada um. Nasce um a cada dia. Agora,
o título é uma alusão descarada
ao meu lugar de origem".
Foto: Divulgação/Site
do autor
 |
|
WS - Seu projeto
“Com os dentes” apresenta um conteúdo
explícito de poesia contemporânea brasileira,
que trem é esse, usando uma palavra carruagem
de Minas Gerais?
RB - Meu pai era,
o que hoje chamamos de vendedor ambulante, ou seja,
o caixeiro-viajante, então ele viajava sempre
e deixava a sua ausência como sentinela. Quando
voltava, passava boa parte do tempo gastando o dinheiro
que ganhou nos botecos da vila. Me acostumei a esperá-lo
e acho que até hoje, após muitos anos
ainda continuo esperando-o. Paciência, vou chegar
lá. Tentei negociar com a ausência e disso
surgiu a paixão pelos livros muito cedo. Não
quero parecer pedante, mas aos oito anos já lia
Mark Twain, Daniel Dafoe, Cecília Meireles, Castro
Alves, Gonçalves Dias, e mais uma pá de
malucos. Acho que lemos para nos povoar. Firmemente
decidi pela música, mas meu primeiro contato
foi com a literatura, a poesia. Então quis sempre
fazer algo que tivesse os dois, não música
e letra, mas músicas e poemas e que não
fossem meus, afora a música. Nunca rolava, pois
muita gente faz esse tipo de projeto. Tem sempre alguém
fazendo um disco de poesias musicadas, assim, não
encontrava um motivo forte para tentar concretizar o
meu desejo, pois não queria musicar Vinicius,
Cecília Meireles, Florbela Espanca, Fernando
Pessoa e tantos outros que já me soavam visitados
demais.
Essa idéia ia e depois voltava, assim, como uma
recaída, e como toda recaída, voltava
sempre mais forte.
Até que percebi que o cenário da poesia,
principalmente a brasileira mudava radicalmente. Para
melhor, é claro. Surgiam nomes que eu logo me
identificava. Diziam a mesma coisa, só que de
um ângulo totalmente diferente, jamais visitado.
Era a hora? Mas eu ainda estava perdido, pois como
transitava mais no meio musical e só lia os caras,
não tinha o contato direto com eles, essas coisas
chatas de liberação, papelada e terêrê.
Eis que surge Wilmar Silva, poeta de uma grandeza humana
sem precedentes e um dos poetas musicados no disco.
Ele disse: aqui tem um, ali tem outro e vamos nós.
Então gravei em duas noites em São Paulo
um disco que anteriormente ia se chamar meio-a-meio,
mas de última hora me veio a idéia de
colocar “Com os dentes” trecho de um dos
poemas de Fabrício Carpinejar (poeta também
musicado no disco) que puxei para batizar um projeto
que foi feito com afinco, paixão, sopros, sussurros
e principalmente com mordidas. Onze músicas,
onze poemas, onze poetas e apenas um destino.
WS - O que pensa
sobre a música de “Sol Paulo” –
lendo o encarte de Angico: “sun” é
sol em inglês” – mas pensando que
a sua música tem uma atmosfera hereditária
de Minas?
RB - É, nordestino
diz, “SunPaulo” e nem sente. Depois fiz
essa ligação com o sun de sol em inglês
e essa coisa da busca do emigrante e do imigrante por
um lugar ao sol e também dessa dificuldade de
fazer sol em São Paulo.
Eu penso em brasileiro. Esse povo paradoxal, melancólico
e festivo, talvez festivo demais só pra esconder
toda a melancolia. Há pedaços, miríades
desse povo, dessa mistura, correndo em minhas veias
de papel e aço, e por isso aonde chego sou compreendido.
Em algumas partes mais, noutras menos. Uma vez um artista
carioca ao terminar de ouvir uma de minhas músicas,
disse; você vai se dar muito bem em Minas. Tem
algo de mineiro em sua música. Esse oráculo
ainda não se concretizou, mas já começa
a dar o ar de sua graça. E canto SolPaulo toda
vez que piso num solo que ainda não havia pisado.
E canto SolPaulo para esse solo. Ou seria “SoloPaulo?”.
WS - Como foi ser
gravado pelo grupo Ira! e o que isso mudou em sua vida
de artista?
RB - No começo
foi muito bacana. Realmente muitas portas se abriram.
Devido a isso, hoje sou sondado por grandes intérpretes,
mas existe todo um jogo no meio. Coisas do Show Bussiness.
O Ira! É um grupo que surgiu nos anos oitenta,
no bum do bom rock brasileiro e que eu me apeguei muito.
Aquele lance já meio underground deles me fascinava.
Financeiramente também foi uma coisa bacana,
mas com o passar do tempo você sai da emoção
e começa a perceber que isso são apenas
conseqüências e que você precisa criar
outras. Sabe aquela frase: enquanto mais trabalho, mais
sorte eu tenho? Mas, o mais positivo disso tudo é
que ficamos sabendo que os grandes nomes ainda apostam
em artistas emergentes e que a qualidade ainda é
um quesito importante.
WS - A música
“Nenhuma Música”, a exemplo de “Embarque”,
sendo a voz o instrumento, revelam um compositor na
fotossíntese da memória, puxando o baiano
de Jequié Waly Salomão, “A memória
é uma ilha de edição?”.
RB - Não
conhecia essa expressão, mas é exatamente
isso. (grande, Waly Salomão) Meu único
compromisso com o presente e com o futuro é o
de construir material para poder editá-lo no
passado. Afora isso, não tenho nada a ver com
eles. Não nasci pra ser sentinela do abismo.
Sou um artista do pretérito, por isso me renovo
continuamente. Estou sempre dando minhas escapadas para
fuçar um passado alegre e doído, sincero
e traiçoeiro. É o risco. Afinal de contas,
a arte não vive de comodidades. O Artista que
acha que pode sair ileso disso é melhor desistir
desde já. Temos toda a força-memória
diante de nós e ai cortamos aqui, cortamos ali.
Usamos a machadinha. Mas jamais podemos cortar no lugar
errado. “Nenhuma música” e “Embarque”
são canções que estão sempre
me dizendo quem eu sou de verdade. São os meu
lamentos. O artista nu, de pés descalços
e com catarro escorrendo, sem ligar a mínima
para conceitos, padrões e tarárá.
Na maioria das vezes, a música é o que
você tem, e não o que você faz. Numa
dessas minhas escapadas diárias, quando encontro
algo que me emociona, comparo isso, mais ou menos, a
um colecionador de arte quando encontra um objeto que
o fascina. A diferença é que ele guarda
para si e eu canto logo em seguida.
WS - Para usar uma
palavra acabada por João Cabral de Melo Neto,
qual a inspiração de Reynaldo Bessa?
RB - Gosto muito
de uma definição do escritor norte-americano
Henry Miller, por quem sou fascinado. “Você
não cria nada, tudo está pronto, você
só dispara a capacidade de alinhar a sua mente
com a do criador e aí você recebe o belo”
mais ou menos como um “Dial”. Parece poético
demais, fácil demais, mas é o que concebo
hoje, talvez pela minha incapacidade de explicar essa
coisa toda. Já passei por esse lance de transpiração
99%. Usei muito em canções que pareciam
não querer nascer, mas muitas vezes me caíram
coisas tão leves e simples como caem as gotas
de chuva. Sem a menor força. E isso não
me parecia nada com 1%. Longe disso. Pode ser que depois
de um grande esforço você dispare algum
mecanismo e logo em seguida algo te é ofertado
de uma maneira mais leve, pode ser. Mas isso não
seria maniqueísmo psicológico, ou biológico?
Sei não. Prefiro a incógnita. O que sei
é que tenho muitas inspirações,
ou digamos assim, muitos momentos de alinhamento com
a mente do criador (não leia-se aqui Deus) ou
a definição de João Cabral, mas
pra não deixar de responder, sem dúvida
nenhuma, tudo o que eu fizer na musica, na poesia, ou
sei lá mais em o que, terá sempre a ver
com “O arrastar de chinelo de minha mãe
de madrugada” Esse som, até hoje me mantém
atento e forte.
WS - Se pudesse
assinar uma “Música Popular Brasileira”
do imaginário nacional, sobre o nome de qual
compositor você escreveria “Reynaldo Bessa?”.
RB - Não
assinaria nada concebido por outrem. Essa é a
história dele. Talvez tenhamos uma única
oportunidade de escrever nossa própria história.
Será isso importante? E isso é nosso mínimo.
É mais ou menos como um amigo seu que visita
uma cidade que você muito admira e na volta ele
tenta te contar as impressões obtidas. Paris,
por exemplo, com suas luzes, seus cafés, seus
museus e suas histórias. Você pode até
ouvir atento, mas jamais chegará perto do ele
sentiu. Cada viagem é uma viagem. Carrego sempre
comigo o pensamento que a grande canção,
a obra-prima ainda não foi feita. Esse é
o meu verdadeiro norte. Minha diretriz. Hoje não,
mas quando comecei minha carreira era fascinado por
alguns compositores, principalmente os letristas, então
se você quer saber uma canção por
qual tenho um grande fascínio, é Tudo
Outra Vez, de Antônio Carlos Belchior, mas têm
muitas outras...
Visite o site
de Reynaldo Bessa
Visite o site de Wilmar Silva |