Brasil sem memórias
Há poucos dias tivemos um caso aqui no RJ em que policiais deram voz de prisão a traficantes dentro da cadeia. Isso quer dizer que a bandidagem possui voz e comando até mesmo dentro dos presídios. Isso em pleno ano eleitoral, onde todos prometem segurança, água, luz, esgoto, asfalto; e o que temos à vista é somente mais caos. Como lidar com isso? Uma vitória brasileira no mundial de futebol poderia ser uma alternativa decente, enfiando a Jabulani goela adentro dos brasileiros inconformados com nossa situação tragicômica e lamentável. Todavia, a seleção perdeu.
Interessante, como os fatos relacionados ao futebol recebem mais holofotes do que os casos comuns de crimes (que não envolvem celebridades). Por exemplo, todo mundo só fala do caso do goleiro do flamengo, com repercussão assustadora, para algo que parece já estar resolvido. Sensacionalismo. Alguém ainda lembra do caso Mércia? Já esquecemos? Indo mais longe, do caso da engenheira Patrícia, lembrado até pelos vândalos que picharam o Cristo Redentor, tempos atrás, alguém lembra? Indo mais e mais além, algum de nós se importa com as centenas de crianças desaparecidas, casos e mais casos de anônimos que nunca mais foram vistos? Os famosos rostos nas contas de luz. Não é conosco. Não nos concerne. Não é o foco.
Temos foco nas UPPs, mas não temos foco nos bandidos se refugiando na baixada fluminense e áreas adjacentes. Temos a copa e as olimpíadas em foco, mas esquecemos de todas nossas mazelas sociais que se alevantam, mas que fazemos questão de esconder, levantando muros e expulsando o mal do centro. Ontem vi uma celebração na tevê, sobre a copa de 2014, quatro anos antes: todos felizes. Cantando o amor e a felicidade da nação brasileira, lembramos da bola e nos esquecemos de Jean Charles, e de todos os brasileiros mortos, maltratados ou segregados no exterior. Nos esquecemos da ditadura, dos corpos que nunca apareceram, dos torturadores livres, dos arquivos mortos. Somos somente sorrisos. Nesta copa seremos vistos como um país que recebe gente de todo tipo, hospitaleiro, um país do bem, boa pinta. Na língua do estrangeiro, um país cheio de prostitutas e drogas fáceis.
Somos uma nação feliz, uma nação sem memória. Uma nação feita de futebol. Só.
Por favor, não passem a bola para mim, não quero participar deste título. Se ser brasileiro é jogar assim, levantem o cartão vermelho pra mim. |