Trenzinho Carioca
Depois me dizem que eu cismo com trem. Aliás, dizem que eu cismo com tudo, pego no pé de todo mundo, que não compreendo o andar das carruagens... Mas já que falamos em andar, trem andando sozinho ninguém merece, não?
Seria cômico, se não fosse trágico (ou terrivelmente ridículo): o maquinista sai do trem para fazer reparos e o trem sai correndo sozinho. Algo como soltar o cachorro com o portão aberto ou sair do carro com o freio de mão solto. Coisas sem noção. Talvez a cena seja do tipo inexplicável, como abduções alienígenas ou mensalão e caixa dois. Alguém tome providências e benza os trens do Japeri.
Imagino o caos que deve ter sido. Aliás, tenho noção clara do caos que acomete diariamente o ramal Japeri da Super (hiper, mega) Via. Pegar esse trem é coisa corriqueira pro pessoal aqui da baixada. Central do Brasil? Vá de ônibus, de van ou de trem. Ir de ônibus é enfrentar engarrafamentos, ir de van é enfrentar blitz constantes e acabar vendo seu transporte alternativo ser apreendido e ficar na rua. Ir de trem é essa coisa mística que estamos vendo.
Obviamente que a Supervia se pronunciou sobre o caso: “É óbvio que espíritos dominaram a cabine do maquinista, onde, há setenta e três anos atrás um passageiro morreu. Imagino que seu espírito ainda esteja lá. Vamos desativar aquela composição, finalmente”. Detalhe, o mesmo trem há trocentos anos... Segundo detalhe: os passageiros não poderiam receber o dinheiro de volta. Que fossem numa mesa espírita e tentassem protocolar o pedido com os fantasmas! Aquilo lá não foi falha técnica: foi o gasparzinho.
O pessoal de “roliúde” já recebeu a notícia: vão rodar um filme em Ricardo de Albuquerque (onde o trem partiu sozinho, em frente a um cemitério – medo), filmando até Oswaldo Cruz. Se chamará “O Trem Fantasma”. Clichê, não? Mas em inglês fica um “must”. Ganhará Oscar, Globo de Ouro, Cannes. E enquanto isso a gente fica nesse trenzinho carioca sem fim. Ainda bem que o Gasparzinho é camarada. Será que ele me deixa em Deodoro? |