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Rio de Janeiro, 30.04.10 |

Pacificação de Fuzil – a paz ou a morte

Ocupação pacífica do morro do Borel. Parece até piada, mas não é. Tudo bem, não é nenhuma novidade, apesar da operação ter sido levada sem o disparo de uma bala. Foi tudo muito bem, não morreu ninguém. É sério, não é piada...

Manhãzinha, o traficante mal acordou pra ganhar o seu dinheiro, e a polícia pacificadora já estava trabalhando. Não houve tiroteio, não houve barulheira: parecia um jogo de truco. Quase ninguém foi preso. Os meliantes deveriam estar de férias.

Reza a lenda que fugiram todos, amedrontados. Não sei como a bandidagem sabia da ocupação, mas todos esticaram o feriadão aqui na Baixada Fluminense. Saiu geral do Borel, Casa Branca, Chácara do Céu, Cruz, Formiga, Indiana e Catrambi. Férias coletivas. Remuneradas.

Seria esse que vos escreve um injusto com o excelente trabalho da nossa polícia? Talvez. Mas a verdade é que, de fato, toda a vez que se varre o chão aqui no Rio de Janeiro, costumamos empurrar a sujeira pra debaixo do tapete, ou do sofá. Mas a sujeira sempre aparece. Não dá para esconder por muito tempo.

Então eu te pergunto, sagaz leitor: estamos empurrando o tráfico para onde? Lá vêm os turistas, vamos esconder tudinho – o tráfico, a pobreza, o lixo – e só mostrar a parte maravilhosa da nossa cidade, cheia de encantos mil. “Que venha o progresso, que regresso a gente tem demais: enfie na sacola e deixe nos fundos. Depois a gente pensa no que fazer com essa gente.” Por mais que pacifiquem a maioria das favelas que querem, sempre vai sobrar a sujeira por debaixo do tapete. E nós, moradores do Rio de Janeiro – Fundos, somos o tapete.

Sinceramente, eu até acredito na eficácia das ocupações – sou inocente o bastante ­– mas não posso pular de alegria enquanto uma parcela pequenina, quase nada, das nossas comunidades foram pacificadas. E tudo isto sem saber até quando. Vamos encher os morros de UPPs (unidade de polícia pacificadora) até quando? E o que não pacificar, faz o que, bota muro, mata, taca fogo?

Pacificação de fuzil, armas e coletes. Parabéns, se viver coagido pra você é ter paz. Polícia Militar faz ocupação militar. Quem faz ocupação pacífica é só a Igreja Universal do Reino de Deus. Ponto.

A parte boa (e ruim) da notícia é a população honesta dos morros, feliz com a suposta paz instaurada. Mas repare nos jornais que poucos se pronunciam: é o medo da vingança, do contra-ataque. Medo de depois do fim da ocupação voltar tudo ao normal, o bandido volta e castiga quem abriu o sorriso pros pê-emes. Todavia largo é o sorriso da classe alta, adorando essa coisa toda de muro, ocupação: quem sabe não prefeririam todos mortos? E eu, aqui dos fundos da Baixada, olho tudo isso e vejo o sol através da peneira.

“E levanta a bandeira, é tudo nosso”, Diz o Pê-eme. Não custa nada sonhar.

Nosso Rio é enorme, um estado cheio de grades e gente dizendo “perdeu”. Algum dia a gente chega lá e vê mudança de verdade.

***
SOBRE O AUTOR: *GUSTAVO ALVARO não passa de um pacato cronista carioca,
músico, poeta e fofoqueiro. Professor, publica poemas e contos na página http://recantodasletras.uol.com.br/autores/gustavoalvaro.
[[ SITE OU BLOGUE PESSOAL: www.intelectofutil.blogspot.com// CONTATO: ggalv@hotmail.com ]]
 


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