O isolamento baiano entre o povo e o presidente Lula
Fotomontagem: Iza Calbo s/ fotos de Jorge Alexandre e divulgação

No sábado, dia 03, a rotina na Praia de São Thomé de Paripe, foi parcialmente alterada. O presidente Luiz Ignácio Lula da Silva veio curar a ressaca do Réveillon passado em Fernando de Noronha na capital baiana. Nunca se viu tanto policiamento. Afinal, enquanto os pobres faziam a “farofada” na praia mais suja que nunca, o presidente ocupava a praia privada da Marinha, de águas calmas e limpas. Embora não deva se acreditar que o nosso presidente vá mergulhar por lá. Até porque, a sujeira se movimenta.
A imprensa estava toda lá em busca de uma imagem de Lula e sua família. Mas, obviamente, perdeu o tempo. Ele montou a tenda na Praia de Inema na Base Naval de Aratu. O presidente deve permanecer por lá até o dia 10, mas os moradores terão a área interditada até o dia 12. Junto com Lula, a primeira-dama Letícia, dois filhos, as respectivas noras e dois netos.
A desavisada aqui não sabia da nobre visita e pôde acompanhar como o povo é um bando de IDIOTA. Na verdade, as pessoas em sua maioria não sabia que o Lula Lá estava aqui. Só no final da tarde, ao ver a imprensa e um bando de policiais foram se inteirando do acontecimento.
Arrisquei-me a passar para o lado de lá, a fim de tomar um banho sem lixo. Comecei a ouvir um “psiu”, “psiu” e, claro, ignorei. Havia chegado de Ilha de Maré onde estive há pouco mais de um ano e já estava enojada com a falta de educação dos banhistas e barraquistas (ou seriam barraqueiros?). Na hora de subir na embarcação, um tumulto desnecessário e, para completar o domingo, excremento no mar. Simplesmente um ABSURDO.
Numa das barracas, tentei um banho de água doce e percebi um cheiro horrível. O “garçom” que queria mais de 10 por cento pelo atendimento, explicou que era porque não havia esgotamento e a água fétida dos pratos corria pela areia em direção ao mar. Depois dessa, catamos as coisas e entramos numa embarcação irregular, por conta da MERDA flutuante. Contudo, passados 30 minutos fomos transferidos para outra, igualmente irregular.
Voltando à base naval, o circo estava armado. Policiais mandando as pessoas para longe a fim de não incomodar o presidente e sua família em mais uma viagem paga por nós. Ouvi dizer que Lula irá pescar. Certamente levarão ele para outro lugar, porque com a poluição da praia os peixes devem matar até a si próprios.
Enfim, ali deu para ter uma noção do que seja o Brasil. A separação. Os “não me toques” das nossas autoridades e aquelas praias imundas porque falta educação. Neguinho toma o refrigerante e joga a garrafa Pet e os copos descartáveis no chão. Para entrar na água é preciso desviar dos restos de lixo do Réveillon e destes dias quentes de sol. Ora, a prefeitura poderia pelo menos ter limpado aquela porcariada toda. Definitivamente, ao povo basta isso: Pão e Circo e uma “bostinha” – com perdão da palavra – para mostrar que neste País somos todos tratados com descaso sem diferenciar o lixo material do humano.
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*IZA CALBO é jornalista (aposentada) e escritora
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