UM ANO DE LEI SECA: DESAFIO É SOBREVIVER
Que me perdoem as vítímas e as famílias de vitimas envolvidas em acidentes com motoristas embriagados, pois somente em casos dolorosos como esses, eu consigo entender um posicionamento radical com relação ao álcool e à direção.
Já faz um ano desse exagero e, mais uma vez, afirmo que não faço apologia ao álcool, muito ao contrário, mas ainda me dou o direito de reclamar a minha ida ao restaurante com meu marido pra jantar, tomar uma garrafa de vinho tinto(duas taças e meia pra cada um) e voltar em paz pra casa na intimidade do nosso carro. É um verdadeiro saco ter de dividir nossa conversa, nosso finzinho de noite com um motorista abelhudo nos olhando pelo retrovisor, ou ter que tomar nosso vinho em casa. Que retrocesso na nossa vida monótona de casal.
Bom, não é possível que todos os habitantes dessa cidade que possuam carro, que gostem de tomar um chopinho, sejam uns irresponsáveis, alcoólatras, assassinos no trânsito. Pois é assim que todos nós estamos sendo vistos. Nem nos países de Primeiro Mundo a coisa caminha dessa forma. É preciso você estar fazendo uma M. pra depois pagar o preço. Antes disso, rola o benefício da dúvida. Aliás, existem muitos testes além de um bafômetro viciado, pra medir nosso reflexo, nossa condição de conduzir um carro.
Neste primeiro aniversário da lei seca, faço a minha reflexão diante das experiências que tive. Claro que de alguma forma eu me rendo. Se hoje eu for naquela festa ou fizer aquela farra, prefiro mesmo pegar um táxi de companhia, contratar um motorista ou, em grupo, lançar mão de uma van. Além de ser mais seguro é mais confortável. E não me venha sugerir pegar um ônibus toda arrumada, de salto alto, sábado à noite! Convenhamos que a gente trabalha pra ter algum conforto. Mas confesso que não suporto mais as situações de risco que estamos enfrentando por medo de perder a carteira de habilitação, numa simples saída sem grandes consequências.
Antigamente você saía no seu carro, tomava uns “garotinhos” e voltava devagar, numa boa, tomando cuidado, conversando e chegava são e salvo. Hoje, você é obrigado a tomar um táxi. Aliás, alguém anda fiscalizando esses profissionais? Pois já peguei taxista bêbado, cheirado, tarado, imprudente, de todo jeito! Deixamos de dirigir nossas próprias vidas pra nos arriscar na mão de um desconhecido visivelmente perturbado que guia o seu carro amarelo, com ares de poderoso, imune às leis. Não são todos, é claro, seria uma injustiça da minha parte, mas a quantidade de maluco dirigindo táxi é incontável. E o pior é que quando entramos numa viatura ficamos acuados, submetidos, reféns e de preferência de bico calado, antes que nos aconteça o pior. Já fui cantada, agredida verbalmente, jogada de um lado pro outro do banco em função das ultrapassagens ziguezagueantes, ouvi impropérios, xingamentos que honestamente me ofenderam e muito. Isso não é fora da lei? Imagine se eu vou ficar tranquila, deixando minha filha voltar de uma festa num amarelinho desses! Às vezes acho que prefiro um colega dirigindo com algum nível alcoólico no sangue, mas com respeito. Sem contar com a quantidade de pedestres acidentados que já vi por atravessar fora da faixa. Bêbado é perigoso até a pé. Eu disse bêbado, que fique claro.
As pesquisas são controversas, não se tem um número exato, um percentual correto da diminuição dos acidentes, pois existem várias correntes dentro dessa lei, sindicatos de restaurantes, hotéis e casas noturnas em desespero, governos moralistas em tempo de campanha, famílias da classe média em pânico querendo ver seus filhos jovens em casa, e muitas outras coisas que minha ignorância não permite identificar. E quando a blitz do fim de semana pega um ator conhecido, um cantor famoso, um jogador de futebol, melhor pra mostrar serviço, vítima perfeita... E a sociedade bate palmas. Mas eu - uma rebelde ainda com carteira - sou totalmente contra a qualquer coisa extremada, acho ignorante. Além disso, acho uma piada com bordão e tudo: tolerância zero!
Bem, que venham as blitzes, as leis que “pegam” e melhoram a nossa vida, são todas bem-vindas, mas com um mínimo de inteligência e respeito à minha privacidade e ao meu direito de ir e vir em segurança.
Pronto, falei! |