Ai laique viola caipira
Dia desses, numa noite surda, estava eu navegando na rede. O de sempre: procurando conhecer músicas novas, lendo sobre viola, cutucando onças virtuais com varas curtas. É um costume engraçado meu, mas por várias vezes fico sentado no computador, navegando, escrevendo, mas com a viola ou o violão no colo. Às vezes nem estou tocando, apenas o instrumento fica lá, no colo, depois de afinar, ou de tocar um pedaço de uma nova composição, ou o que o valha. Uma fissura comum em amantes da música. Você entende, sei que entende.
Então, daí que eu tava surfando na Internet quando me deparei com uma pergunta boba, nesses sites que abrem pra qualquer um responder uma questão. A pergunta era, mais ou menos, quais eram as músicas sertanejas preferidas dos usuários. Ponto. Me chamou atenção, música sertaneja e caipira é comigo mesmo. Se você não gosta de música sertaneja, parabéns. Pode ser seu gosto pessoal, ou você deve ser mais um dos brasileiros que só escutam música estrangeira. Aí entra não só a música sertaneja, mas também a MPB, samba, chorinho e, por que não, o axé, forró, pagode e funk? Não é música brasileira?
Acontece que estamos condicionados a reverenciar o estrangeiro, sua cultura, seu modo de vida. Por exemplo, tem gente que odeia música caipira, mas acha lindo o country americano, blues, folk, essas coisas que só não se chamam caipiras porque não são brasileiras. Não acho que todo brasileiro seja obrigado a reconhecer a beleza que há em sua cultura, muito menos a regional, mas também acho que a gente passa muito a mão na cabeça do Mac Lanche Feliz musical que nos apresentam. E o que isso tem a ver com a pergunta do site?
Acontece que, me entra um rapaz, dito músico, e tece um comentário. Antes das considerações boçais do camarada, gostaria de abrir um parêntese. Adoro música de um monte de lugar do mundo, um monte de artista gringo, não tenho trava, já andei falando isso por aqui. Se me parece bom, é bom também, não importa de onde veio. Acredito que isso faz parte do músico, essa coisa de saber apreciar boa música, e principalmente respeitar aquilo que você porventura não gosta muito. Voltando no moleque, ele responde a pergunta, diz que odeia música sertaneja, acha uma porcaria, nem considera música. Eita, dor no coração. E para piorar, o amigo ainda faz uma lista enorme com os artistas que ele considera bons. Ninguém perguntou nada, mas ele citou por volta de vinte e cinco nomes. Desses vinte e cinco, havia uns cinco artistas brasileiros, entre eles, umas três bandinhas de roque, que é a nossa música brasileira vestida de americana (ou será o contrário?). Termina o texto dizendo que é importante inserir o ensino de música nas escolas, como disciplina obrigatória. Parabéns, querido! Vamos ensinar música na escola, só com repertório gringo! Vamos aplicar musicalização infantil com AC/DC, vamos ensinar teoria musical com Led Zeppelin e nosso recital de fim de ano vai ser Iron Maiden! Violão clássico, Pink Floyd, aproveita e ensina para as criancinhas que na música brasileira só tem porcaria. Aliás, nem ensina português para elas. Língua feia... I love New York.
Desculpe se interpretei mal o texto do (suposto) músico. Mas pra mim, é idiotice. A coisa me deu um nó tão grande na garganta que eu tive que compartilhar com os amigos. A coisa tá feia. Do jeito que a coisa vai, o inglês vai virar língua oficial do Brasil, e no interior do nosso país, vão tirar a viola da mão do caipira e largar uma guitarra elétrica, com efeito de distorção, pedaleira de três mil barulhos e um cd do Marilin Manson.
A minha viola ninguém tira. Morro, mas levo a danada.
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